MASP Áudios

A dica da quarentena é o aplicativo MASP Áudios, que o museu disponibiliza gratuitamente para usuários de iPhone e Android.

Artistas, historiadores da arte, pesquisadores e curadores gravaram breves áudios comentando obras do acervo do MASP. Você pode ampliar a imagem da obra e observá-la enquanto escuta o áudio.

É uma forma leve e agradável de conhecer um pouco mais sobre as obras. Assim, quando a vida voltar ao normal, você vai for/voltar ao Masp com mais bagagem e vai aproveitar melhor sua visita!

Minha sugestão é Madame Cézanne em vermelho (1890-1894), de Paul Cézanne (1839-1906), com comentários do artista Paulo Pasta.

Exposição Antonio Bandeira, no MAM SP

O motivo para ir ver Antonio Bandeira no MAM são… as próprias obras do Antonio Bandeira, que oferecem um espetáculo para os sentidos!

Antonio Bandeira foi um artista cearense que começou como autodidata, foi para o Rio de Janeiro e logo conseguiu uma bolsa para estudar em Paris. Lá ele conheceu os artistas Wols (Otto Battman) e Camille Bryen, com quem formou o grupo Banbryols (iniciais dos três nomes) e começou a atuar nessa tendência a que podemos chamar de uma vertente da Arte Informal.

O Informalismo se opunha ao abstracionismo geométrico que ganhara força no final da década de 1940, de natureza racional e científica. Os artistas que seguiram esse caminho privilegiam a intuição artística, a subjetividade, a gestualidade na pintura.

Esse nome, “Arte Informal”, se refere a uma arte “sem forma”, isto é, que não se prende às regras do desenho. Essas nomenclaturas eram um terreno de disputa entre os críticos que analisavam a produção artística daquele momento e tentavam identificar e definir uma nova vanguarda. Alguns tentaram dar outros nomes que dessem conta dessa multiplicidade de manifestações abstratas, como abstração lírica, pintura matéria, tachismo e novo expressionismo.

Por essa e outras razões, não vale a pena prender-se a nomes e rótulos: as obras do Bandeira são um espetáculo de cores e formas. São consideradas abstratas, mas o ponto de partida do Bandeira é a natureza e o mundo ao seu redor e ele acaba colocando um pedaço no mundo no seu emaranhado de formas que, porém, não é casual: há uma estrutura, muitas vezes visível, nas composições, como nessa espécie de grade que é bem recorrente. As pinceladas são gestuais, mas as composições são meditadas, o que torna a arte do Bandeira muito peculiar.

O observador ainda um pouco dependente de definições pode recorrer ao título da obra, no qual o artista dá a indicação do tema. Por isso, para aproveitar uma melhor a experiência desse contato com a obra, tente primeiro observar a tela com atenção, ver o que você enxerga, antes de ir olhar o título na plaquinha. É esse jogo de observar a obra, tentar senti-la, entendê-la, descobrir do que se trata e tornar a observá-la que constitui a relação que se estabelece entre o observador e o artista, na qual a obra é o meio.

Talvez por ter feito noa parte da sua carreira em Paris, e certamente por ter ficado à margem de regionalismos de estilos ou dos programas estéticos em voga na crítica de arte brasileira, Antonio Bandeira acabou não ganhando muito destaque na narrativa mais conhecida da história da arte no Brasil e não sendo tão conhecido pelo grande público. Mas, entre idas e vindas nos ambientes brasileiro e francês, participou de importantes eventos artísticos tanto por aqui quanto por lá.

Então, dê-se esse presente! Vá ver a exposição do Bandeira no MAM de coração aberto e encarando cada obra como se fosse uma pessoa diferente que tem algo particular a dizer.

Galeria de imagens

Museu de Arte Moderna de São Paulo – MAM
Parque Ibirapuera, Av. Pedro Álvares Cabral, s/n°.
Terça a domingo, 10h às 17h.
Grátis às terças.
http://www.mam.org.br
Até 1 de março de 2020.

Semana de Arte contra a Barbárie

Nesta semana acontece a Semana de Arte Contra a Barbárie, uma série de eventos artísticos que vão acontecer todos os dias de 11 a 18 de fevereiro, a partir do meio-dia, na frente do Teatro Municipal.

A ideia partiu de um grupo de pessoas ligadas à cena cultural da cidade de São Paulo que, preocupadas com os casos de censura que vêm acontecendo em todo o Brasil, alguns deles partindo do próprio governo federal, pensaram em organizar um movimento que viesse de encontro a essas investidas.

A iniciativa recebeu o nome de Movimento Artigo Quinto, em referência ao artigo da Constituição Federal que diz ser “livre a expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, independentemente de censura ou licença”, entendendo que a liberdade de expressão é essencial para qualquer produção artística.

A Semana prevê uma programação vasta, com artistas de muitos campos de arte, entre eles dança, teatro, literatura, artes visuais, performance, além de música também dos mais variados gêneros musicais que a multiplicidade da produção artística da cidade oferece.

E, é claro, em frente a esse local emblemático que é o Teatro Municipal que, além de ter sido o primeiro grande espaço cultural da cidade, foi onde aconteceu a Semana de Arte Moderna de 1922 nesses mesmos dias, de 11 a 18 de fevereiro.

A programação completa você encontra no site do movimento, www.artigoquinto.art.br.

Semana de Arte contra a Barbárie
De 11 a 18 de fevereiro de 2020
Das 12h às 14h30/15h
Em frente ao Teatro Municipal de São Paulo (SP)
Todos os dias em frente ao Teatro, com exceção de domingo 16/2, quando o encontro será na av. Paulista, na esquina com a rua Peixoto Gomide.

Exposição “Leonardo da Vinci – 500 anos de um gênio”, no MIS Experience

Para inaugurar seu novo espaço de exposições, o MIS (Museu da Imagem e do Som) fez uma escolha inteligente ao trazer ninguém menos que Leonardo da Vinci, um artista que extrapolou o campo da arte e, por isso, realizou obras de variados gêneros, que proporcionam aquilo a que o novo espaço se propõe: o de oferecer uma “experiência”.

O percurso oferece quatro momentos. Começa com os espaços com reconstruções de projetos e invenções, de máquinas de guerra a instrumentos variados, inclusive suas famosas engenhocas de voar, que intrigaram e inspiraram outros engenheiros a criarem as máquinas que hoje são banais. Algumas delas podem ser tocadas e são verdadeiras aulas de física.

Nesses espaços foram integradas as reproduções de pinturas, que mostram esse campo de atuação como pintor, e ainda suas ilustrações anatômicas, muitas feitas a partir da observação de cadáveres. Por se tratarem de apenas reproduções, essa seção é meramente ilustrativa e informativa – um pouco frustrante para quem esperava ver alguma pintura verdadeira de perto. Vale pela reprodução das duas versões da Virgem dos Rochedos e observar as diferenças entre elas, pelo menos até onde é possível ver só pela reprodução.

O segundo grande espaço é uma galeria com projeções de imagens por toda a parte, combinada com informações gerais e efeitos sonoros. A imersão estimula os sentidos e oferece alguns momentos de contemplação e descanso – o que, a meu ver, poderia ter sido deixada para o final do percurso. É um pouco difícil, depois de tanto estímulo a todos os sentidos, retomar a concentração para a terceira parte, que é uma continuação da primeira, uma sala menor com outras invenções de Leonardo. É igualmente interessante como a primeira, mas acaba prejudicada por essa quebra no fluxo da visita.

O último espaço é dedicado à obra mais famosa de Leonardo, a Mona Lisa. É a parte que mais interessa aos historiadores da arte, já que traz informações sobre os estudos mais recentes feitos com técnicas modernas, que revelaram novos dados sobre a pintura. Por exemplo, o retrato original presente numa camada inferior de tinta que, segundo o historiador responsável pela pesquisa Pascal Cotte, seria o da verdadeira Lisa Gherardini, cujo retrato foi encomendado por seu marido ao artista. A imagem que vemos, segundo ele, seria então de outra pessoa.

Uma reprodução com a simulação das cores originais da pintura – que hoje apresenta-se esverdeada e sem vários detalhes que se perderam com o tempo – é outra informação importante da história da obra.

Exposições interativas de artistas serão sempre mais comuns e cumprem um papel específico, que é o de difusão de obras e artistas. Neste caso, não deixa de ser divertido e instrutivo ver materializados os objetos que ele deixou em projeto, conhecer melhor as ideias que ele teve quando tudo aquilo era impensável e compreender a importância que ele tinha nas cortes europeias. Fica clara a versatilidade desse artista e a contribuição que ele deixou para a ciência, a engenharia e as artes.

Exposição “Leonardo da Vinci – 500 anos de um gênio”
Até 2 de março de 2020.

MIS EXPERIENCE
Rua Vladimir Herzog, 75 – São Paulo-SP, Brasil
Terça a domingo das 9 às 19 horas
Segundas: fechado
Quartas a sextas, R$35 (inteira) e R$17,50 (meia-entrada).
Sábados, domingos e feriados, R$45 (inteira) e R$22,50 (meia-entrada)
Grátis às terças.

Galeria

Obras de arte: sobre a fama da Mona Lisa

Muita gente se pergunta, e me pergunta: o que diabos está por trás da Mona Lisa? Por que é tão especial? Como um simples retrato pintado, gênero comuníssimo da Antiguidade até o surgimento da fotografia, se transformou na obra de arte mais conhecida, comentada, divulgada, copiada, estudada, polemizada, reproduzida, satirizada, etc. etc. etcetera ?

Bom, eu não tenho todas as respostas, mas posso compartilhar algumas curiosidades com vocês. São questões interessantes para pensar, e este é realmente um quadro do qual podemos falar por horas, então aqui vou deixar de lado a análise da pintura para falar de outros aspectos da obra, ok?

O mito da Mona Lisa foi se construindo ao longo do tempo. Não é a melhor obra de arte já feita (aliás isso não existe na História da Arte), não é o retrato mais excepcional já pintado. A sua fama não deriva de um dado técnico, embora ela traga inovações técnicas fundamentais, como o sfumato e a composição do quadro. Também não deriva do impacto ao vê-la de perto, já que se trata de um quadro relativamente pequeno, nem do seu autor, já que há outras pinturas de Leonardo da Vinci no próprio Louvre igualmente importantes. Nem de possíveis mensagens secretas por trás do seu sorriso (desculpe, Dan Brown). É de poucas informações e lendas que surge um mito pois, quanto menos se sabe, mais se imagina. Cuidado com os mitos, #ficaadica.

Quem
O retrato era uma encomenda a Leonardo da Vinci (1452-1519) de Francesco del Giocondo, um rico comerciante de Florença, e a retratada seria sua esposa Lisa Gherardini. Daí vem os dois nomes pelos quais a obra é conhecida: La Gioconda (a esposa do Giocondo) e Mona Lisa – Senhora Lisa, no italiano arcaico.

Acontece que estudos muito recentes identificaram, numa camada inferior da pintura, uma imagem bem diferente daquela que conhecemos. O historiador francês Pascal Cotte, responsável pelas novas análises, usou tecnologias modernas para identificar e reconstruir o que seria outro retrato, que ele considera a representação da verdadeira Lisa Gherardini. O retrato que conhecemos seria, de acordo com a sua teoria, de outra pessoa.

Essa investigação encontrou outras variações que já não eram mais visíveis devido ao tempo, como detalhes do véu, dos cabelos e da estampa do vestido, e ainda as cores originais da pintura, que perdeu muito da vivacidade e atualmente tem sua superfície dominada por tons de verde e marrom.

Onde
A obra foi pintada em Florença entre 1503 e 1506 e, apesar de ter sido uma encomenda, Leonardo nunca a entregou ao comitente. Levou-a consigo para a França, quando em 1516 foi para a corte do rei Francisco I. Não parece consenso se o rei da França a comprou ou se o artista doou-a à Coroa francesa antes de morrer. De qualquer forma, foi por ter estado esses 3 últimos anos de vida na França que a obra passou a fazer parte da coleção real, que foi transferida para o Museu do Louvre após a Revolução Francesa.

Hoje, no Louvre, é uma das principais atrações. Talvez também seja a obra de arte mais bem protegida de um museu: um painel de vidro à prova de balas, um balcão de madeira fixo que separa o público em uns 2 metros, e faixas flexíveis (como aquelas de fila de banco) que dão mais espaço ainda. Ah, e seguranças. Pelo menos dois.

E precisa de tudo isso?
Bom, é aí que começa a fama peculiar da Mona Lisa. Em 1911, a obra foi roubada do Louvre por um ex-funcionário, Vincenzo Peruggia, que pensava que a obra tinha sido levada da Itália como botim de guerra dos exércitos napoleônicos. Nessa época, nem a obra era muito conhecida, nem a segurança do museu era lá essas coisas.

O governo francês, então, passou a divulgá-la de todas as formas, para que fosse identificada como o quadro roubado. Essa estratégia de publicidade foi o primeiro pontapé para a fama da pintura. Diz-se que as pessoas iam até o museu para ver de perto a parede vazia que abrigaria a famosa obra roubada. A Mona Lisa foi recuperada dois anos depois e o ladrão foi preso, após tentar vender a obra ao governo italiano por 95 mil dólares.

Em 1956, ela sofreu outros dois atentados, um por ácido e em outro foi atingida por uma pedra. Em ambos os casos a pintura sofreu danos e precisou ser restaurada. Nos anos seguintes, a obra passou a ser cobiçada por museus de outros países, que passaram a pedi-la emprestada. O prêmio do seguro fora avaliado, então, a 100 milhões de dólares. Daí para a frente, a fama multiplicou-se junto com o valor estimado da obra, até o ponto em que, hoje, estimar quanto ela vale não é mais possível.

Pintor ou gênio
A pintura tornou-se tão famosa que superou a fama do seu autor. Leonardo da Vinci tinha inúmeras habilidades, que iam muito além da pintura: era engenheiro e inventor, um curioso nato, ávido por entender como funcionavam os mecanismos da natureza e reproduzi-los nas próprias construções, que iam de máquinas de guerra a engenhocas para voar. Deixou curiosas e importantes contribuições para a ciência e as artes.

As técnicas aplicadas na Gioconda foram inovadoras e influenciaram gerações, mas Leonardo também tinha pontos fracos. A famosa Última Ceia, obra do artista na parede da igreja Santa Maria delle Grazie em Milão, é o resultado de uma experiência malsucedida. Ele não usou a tradicional técnica do afresco (quando a tinta é aplicada em uma fina camada de gesso conservando a coloração por muito mais tempo) mas pintou diretamente sobre a parede. Hoje a pintura está em péssimas condições de conservação, longe do alcance das técnicas atuais de restauro.

“Fui ver a Mona Lisa e nem achei tudo isso”.
Essa obra é um exemplo ótimo para entender que, na Arte, são muitos os fatores que determinam os valores de uma obra: valores no plural, pois o valor pode ser histórico, artístico, documental, monetário e até mesmo afetivo.

O espaço que a Mona Lisa ocupa no imaginário das pessoas faz que elas, ao visitarem a obra no Louvre, esperem alguma espécie de epifania ou visão divina, ou um quadro monumental que lhes tire o fôlego, ou uma mulher estonteante. Como eu disse, trata-se de um quadro relativamente pequeno (e talvez aquela muralha que criaram para abrigá-la a faça parecer ainda menor), que perdeu muito das suas cores originais, e entre ela e o observador tem inúmeros obstáculos, prejudicando muito a sua contemplação.

Acima de tudo, é importante entender que o valor inestimável da Mona Lisa é composto dessas várias camadas de tinta e de história e, que se faça justiça, pertencem também ao seu autor, um dos homens mais brilhantes da história da humanidade – e brilhante não significa impecável. A História ensina que mesmo os ditos “gênios” colecionam acertos e erros. Você pode não gostar da pintura (e está tudo bem!), achar que ela não é tudo isso (e está tudo bem!), só não pode achar que ela não tem valor. Isso, como se diz hoje em dia, é uma questão de fato, não de opinião.

A Gioconda foi referência a gerações de artistas por séculos, é um registro um momento importante da retratística renascentista e da obra de Leonardo, é uma fonte fundamental para estudar a técnica do sfumato que ele criou.

A dica é: se for a Paris, vá ao Louvre; se for ao Louvre, vá ver a Mona Lisa. E não se assuste com a multidão em frente ao quadro, pois 90% das pessoas que estão lá não vão ficar mais que 10 segundos – o tempo de uma selfie. Espere 2 ou 3 minutos, aproxime-se até onde é possível e observe, pelo tempo que for necessário.

Mona Lisa / La Gioconda, 1503-1506, Leonardo da Vinci, 77x53cm, óleo sobre tela. Museu do Louvre, Paris.

Exposição “Leonor Antunes: vazios, intervalos e juntas”, no MASP

A exposição da artista portuguesa Leonor Antunes (Lisboa, 1973) no mezanino do MASP, mais do que uma mostra de arte, é uma experiência visual, sensorial e arquitetônica.

Primeiro porque ela cria seus projetos artísticos pensando na interação da peça com o ambiente, o que significa que o primeiro dado com o qual você vai se relacionar é o espaço da exposição. Isso, somado aos tipos de materiais que ela usa – industriais e orgânicos – evidenciam as relações dessas obras não só com a arquitetura, mas também com o design e a escultura.

Assim como o ambiente, os objetos também são compostos de cheios e vazios, e materiais rígidos e flexíveis, alguns espessos, outros são de material tão sutil que requerem um olhar atento para enxergá-los. Mas são todos materiais que conhecemos, de móveis, peças de decoração de ambientes, de projetos arquitetônicos, o que pode trazer uma sensação de familiaridade e mitigar o estranhamento que algumas peças podem causar a uma mente que costuma procurar explicações lógicas ou significado em toda obra.

O contato do observador com esses objetos, com suas formas e sua conexão com o ambiente, com a luz, com as instalações e com os outros objetos e outros observadores formam um conjunto de relações ora simultâneas ora parciais. A dica principal para essa visita é, portanto, estar aberto para essas relações com as formas, permitir-se divertir com elas e levar um pouco dessa sensibilidade para a vida, para os objetos e espaços de uso cotidiano.

Um ponto muito importante da mostra da Leonor Antunes é que muitas das suas referências são outras artistas mulheres, algumas esquecidas pela narrativa tradicional da História da Arte. Na exposição do MASP, no edifício projetado por Lina Bo Bardi, a referência à arquiteta italiana, no uso do espaço, em nomes de obras e o próprio nome da exposição é o que faz dela uma experiência singular.

Repare também no piso, uma composição de formas geométricas inspirada numa obra de Lygia Clark, e na grelha de madeira no teto, referência à casa de Clara Porset na Cidade do México. De fato, naquele espaço não há nada de casual, o que não significa que todos os objetos presentes sejam obras, caso das luminárias instaladas no espaço da exposição.

Mas… será que um objeto de design não é também uma obra de arte? Visite a exposição e me diga o que você acha.

Exposição “Leonor Antunes: vazios, intervalos e juntas
Mezanino do MASP
Até 12 de abril de 2020.

MASP – Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand
Av. Paulista, 1578 – Bela Vista, São Paulo
Terça: 10h-20h (Bilheteria aberta até 19h30)
Quarta a domingo: 10h-18h (Bilheteria aberta até 17h30)
Segunda: fechado

Galeria

Exposição “Anna Bella Geiger: Brasil Nativo/Brasil Alienígena”, no MASP

Ótima oportunidade de conhecer e apreciar de perto a obra de Anna Bella Geiger (Rio de Janeiro, 1933), artista que explora a linguagem artística para provocar reflexões e fazer crítica social e política.

Atuante desde os anos 1950, Geiger participou da primeira exposição de arte abstrata no Brasil, em 1953, mas sua obra passa por uma infinidade de técnicas, o que torna a visita ainda mais interessante porque dá a dimensão da gama de possibilidades expressivas do fazer artístico.

A exposição está dividida em 7 núcleos: Autorretratos, Viscerais, Mapas e geografias, Sobre a arte, Cadernos, História do Brasil e Macios e Noturnos.

Em Autorretratos, por exemplo, a artista usa a própria imagem para criar poéticas sobre a passagem do tempo, ou para fazer crítica social e ambiental. Observe como ela representa a si mesma de formas diferentes para criar as suas composições. Nelas, nenhum elemento é por acaso, a favela, o tamanduá, o uniforme militar, são todas imagens portadoras de significados que vão além do que vemos na obra.

Um recurso muito presente na sua obra são mapas, que são instrumentos para a compreensão do espaço e da atuação do ser humano nele, representando aspectos sociais, históricos, econômicos e políticos. Como toda representação, quem faz o mapa projeta nele a própria perspectiva e os próprios interesses. Os mapas da Anna Bella Geiger querem subverter essa ordem e ajudam a refletir sobre as relações de subordinação entre o norte e o sul, entre Estados Unidos sobre a América Latina, sobre questões de dominação cultural, econômica e política.

Se nos mapas ela parte do ser para o mundo, na série Visceral ela parte do ser e se volta para dentro dele, em representações de partes internas do corpo humano. Como fica claro na exposição, Geiger tinha um forte viés de crítica social e política e essa série foi feita nos primeiros anos da ditadura militar, um período marcado por manifestações e violência nas ruas, em que os corpos eram o principal alvo da repressão.

Nas obras de Macios e Noturnos, ela usou telas elípticas e acolchoadas para criar composições que mesclam figurativo e abstrato, retomando elementos de outras obras suas. Convido a observar essas obras e prestar atenção às formas que ela escolheu e ver a que algumas delas podem remeter.

Além disso, no SESC Avenida Paulista foram montadas 3 instalações da artista especialmente para complementar a exposição do MASP: Circumambulatio (1972), Mesa, friso e vídeo macios (1981) e Indiferenciados (2001), e também 3 vídeos: Passagens 1 (1974), Passagens 2 (1974) e Telefone sem fio (1976).

Esta exposição dá a dimensão de uma artista plural, que usou uma ampla variedade de técnicas para se expressar e que sempre esteve atenta e ativa diante dos graves problemas sociais e políticos graves por que passava – e ainda passa – o nosso país.

Anna Bella Geiger: Brasil Nativo/Brasil Alienígena
MASP – Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand
Av. Paulista, 1578 – Bela Vista, São Paulo
29/11/2019 a 1/3/2020
Terça: 10h-20h (Bilheteria aberta até 19h30 – entrada gratuita)
Quarta a domingo: 10h-18h (Bilheteria aberta até 17h30)
Segunda: fechado

Galeria de imagens

Saiba mais:

Exposição “Memorial do Desenho”, no MAC

O Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo, ou MAC USP, ou apenas MAC, está com uma exposição de desenhos que você tem que ver e eu vou dizer por quê.

De todos os tipos de arte, o desenho foi a primeira forma que o homem usou para se expressar graficamente. Quando estudamos história da arte, o primeiro assunto que se estuda são os desenhos rupestres. Existem teorias de que os homens primitivos desenhavam bisões, mamutes, touros – animais que esses homens caçavam – por uma crença de que, dominando a imagem, dominariam o animal também. Outras, que essas imagens tivessem algum significado ritualístico, sempre relacionada ao momento da caça, para de alguma forma potencializar o poder sobre o animal.

Independentemente de qual fosse o objetivo, trata-se da projeção gráfica de uma ideia sobre um suporte, da representação de algo real a partir de um ato criativo.

Desde então, a Humanidade não parou de desenhar.

A exposição é composta, na sua maioria, de desenhos do próprio acervo do museu, de artistas como Victor Brecheret, Tarsila do Amaral, Ismael Nery, além de algumas obras que dialogavam com estas – você vai ver, logo que entrar, o grafite do artista paulista Rodrigo Amor Experimental.

Quando estiver na exposição, observe os diferentes estilos de traço, de composição, de suporte, de tema, de técnica, como podem ser tão diversos entre si, mas todos têm uma coisa em comum, que é o desenho.

Seja o desenho como representação do real, como projeto, caricatura ou ilustração, como sinalização, representação simbólica ou uma projeção do infinito mundo da imaginação, seja mesmo um simples rabisco no papel, ele está entre nós deixando vestígios dos nossos passos, das nossas ideias, dos nossos feitos, desde que descobrimos que podíamos fazer isso.

Então depois de desenhar o mundo à nossa volta, desenhamos os mundos do além, e os mundos interiores, e os mundos inventados, e desenhamos desejos, e alguns desses desejos viraram prédios, carros, cadeiras, roupas, obras de arte, mapas, sistemas, letras, e juntando as letras criamos palavras, e voltamos ao início e ainda hoje continuamos fazendo tudo isso ao mesmo tempo.

Cada desenho dessa exposição traz um pouco do artista que o fez, e como o desenho faz parte da nossa vida, ela também traz um pouco de cada um de nós.

Exposição “Memorial do desenho”
6º andar
Até 28 de junho de 2020.

Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo – MAC USP
Av. Pedro Álvares Cabral, 1301 – São Paulo-SP, Brasil
Terça a domingo das 10 às 21 horas
Segundas: fechado
Entrada gratuita.

“A última ceia”, 1495-98, Leonardo da Vinci

A última ceia, 1495-98, Leonardo da Vinci. Pintura mural (óleo, têmpera e outros materiais). Refeitório da igreja Santa Maria delle Grazie, Milão.

“Tendo Jesus dito isto, turbou-se em espírito, e afirmou, dizendo: Na verdade, na verdade vos digo que um de vós me há de trair. Então os discípulos olhavam uns para os outros, duvidando de quem ele falava. Ora, um de seus discípulos, aquele a quem Jesus amava, estava reclinado no seio de Jesus. Então Simão Pedro fez sinal a este, para que perguntasse quem era aquele de quem ele falava. E, inclinando-se ele sobre o peito de Jesus, disse-lhe: Senhor, quem é? Jesus respondeu: É aquele a quem eu der o bocado molhado. E, molhando o bocado, o deu a Judas Iscariotes, filho de Simão”. (João, 13:21-26)

“E, comendo eles, disse: ‘Em verdade vos digo que um de vós me há de trair’. E eles, entristecendo-se muito, começaram cada um a dizer-lhe: ‘Porventura sou eu, Senhor?’ E ele, respondendo, disse: ‘O que põe comigo a mão no prato, esse me há de trair'”. (Mateus, 26: 21-23).

Foi este momento específico do episódio bíblico que Leonardo da Vinci escolheu representar na obra encomendada para decorar o refeitório do monastério do complexo que compreende a igreja Santa Maria delle Grazie, em Milão, no final do séc. XV. O episódio da Última Ceia era tradicionalmente escolhido para ser representado nas paredes dos refeitórios dos monastérios e conventos.

As reações dos doze apóstolos davam a Leonardo a possibilidade de explorar a dramaticidade e a teatralidade na figura de cada um. Alguns estão surpresos, outros indignados, outros se apressam em declarar inocência, e apenas um não manifestou reação nenhuma: o autor da traição anunciada.

O artista reuniu as 12 figuras em quatro grupos de três, usando o recurso de proximidade e distanciamento. Veja na figura abaixo quem são:

As reações, que se manifestam nos corpos e nos gestos, contrastam com o cenário em perspectiva em perfeita harmonia, que concentra na cabeça de Jesus o ponto de fuga da estrutura. É esse ponto de define o traçado do ambiente, as tapeçarias nas paredes e o quadriculado do teto.

O efeito da perspectiva faz o olhar estender-se em profundidade na composição e ir além, passando pelas janelas e chegando à paisagem em último plano. Dessa forma, o observador mergulha na pintura, o que deve ter impressionado os monges que ali faziam suas refeições: o ambiente da ceia santa se mistura ao ambiente real do refeitório, ao mesmo tempo em que projeta o olhar para a figura do Cristo, elaborada em formato piramidal, muito apreciado pelos renascentistas.

O estado de conservação ruim se deve, em parte, pela técnica escolhida. Leonardo era um inventor, gostava de fazer novas experiências, e não dominava a técnica do afresco. Diferentemente de uma pintura sobre tela ou madeira, a camada pictórica de um afresco é aplicada sobre a parede ainda úmida (“a fresco“), de forma que a tinta e misture à última camada do reboco. Assim, a camada de tinta é mais sólida e resistente ao tempo. Leonardo preferiu usar óleo e têmpera, pois são materiais que permitem repensamentos e correções ao longo do processo. Diz a crônica que ele observava a obra por horas, dava duas ou três pinceladas, e ia embora.

Há registros do mau estado de conservação já em 1517, menos de vinte anos após sua conclusão. Ao longo dos séculos, sofreu diversas intervenções de restauro, algumas mais, outras menos bem-sucedidas, e entre uma e outra, algumas novas intempéries, como o bombardeamento da porta leste em 1943 e a poluição atmosférica provocada pelo excesso de automóveis nos anos 1960 e 1970. O último restauro durou de 1977 a 1999.

Hoje é possível visitar o antigo refeitório de Santa Maria delle Grazie em Milão, reservando um horário pela internet (com uma certa antecedência), numa visita que dura exatos 15 minutos. A dica de sempre é: se for visitá-la, aproveite cada um desses minutos, não perca tempo tirando fotos. Se puder, pegue um áudio-guia.